
De repente a cadeira onde eu estava sentada começou a se mexer e eu tive de me levantar.
A cadeira da sala, de estofamento bege, aquela que esteve por anos na mesma posição, sacudia violentamente. As pernas tremiam, o encosto se movimentava para frente e para trás bruscamente, e eu fui obrigada então a ficar em pé.
Por horas estive sentada na bela e velha cadeira, ouvindo uma voz familiar proferindo absurdos. Escutava silenciosamente, enquanto a indignação e a raiva se espalhavam por mim, como um veneno. Só que não fui eu quem teve o choque anafilático. (Ainda bem!)
Absurdo? Absurdo era o que eu estava ouvindo, o resto era da mais absoluta normalidade.
Fiquei feliz pela cadeira ter se manifestado por mim. Eu teria partido para a agressão, perderia alguns parentes, alguns dentes e machucaria entes queridos. Mas a cadeira foi de uma educação ímpar.
Levantei assustada, a cadeira dizendo que precisava falar.
Fez-se silêncio na sala. Alguns se sentaram, no chão, a pedido da cadeira, que solicitou que não esmagassem mais uma vez suas primas. Outros permaneceram de pé, em choque, e a nobre cadeira então começou a dizer o que queria e devia ser dito.
De maneira genial, com inacreditável propriedade vocabular e uma eloqüência inesperada, a cadeira manifestou sua indignação. Passou a mim a palavra e eu também pude, não tão bem quanto ela, expressar parte (só uma pequena parte, porque o resto todo seria impróprio e precisaria de força bruta para ser compreendido) do que sentia.
Pouparei a todos dos detalhes do discurso, do motivo de tanta indignação, raiva e sentimentos afins.
Daqui parto para o final da história, quando os parentes se recompõem, cessa o choro dos mais sensíveis, a cadeira emudece, e eu ainda estou sentada ouvindo aquela mesma voz familiar, pessimista e pequena de alma.
Acho que foi o calor...

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